terça-feira, 4 de agosto de 2009

Deixe ver os olhos, Capitu!

Escrever pra mim é tão essencial quanto respirar. Eu durmo, como e respiro palavras. É assim desde sempre.

Já perdi as contas de quantas vezes criei blogs e abandonei-os. Creio que me sinto mais a vontade com lápis, folhas de caderno e madrugadas silenciosas. Mas agora, em meio a esse funcionalismo público, eu necessito escrever. Preciso colorir um pouco dessa sala toda pintada em tons pastéis com as cores dos meus escritos. E assim o farei.

Eu pensei em mil títulos para esse blog. Pensei em Alma corsária, título de um poema que tanto me identifico de Cláudia Roquette. Alma corsária, tão parecida com a minha. Apaixonada por citações, apaixonada por casos perdidos. Pensei em Para uma menina com uma flor, de Vinícius, mas esse título já está sendo utilizado e no momento, acho que estou mais para uma menina sem uma flor. Pensei em algum título em latim ou algo engraçado. Mas, novamente me vi envolvida por Machado de Assis e pela personagem de Dom Casmurro.

Essa história começou há alguns anos atrás, numa aula de Literatura, no cursinho. Eu estava sentada em minha carteira, com o olhar perdido no quadro negro, quando o professor, um rapaz novo e imensamente inteligente disse baixinho para mim:

-Você e esses seus olhos de ressaca. Nunca conheci ninguém que tivesse um olhar tão misterioso quanto o seu.

Sorri sem graça, mas envaidecida. E durante todo o tempo em que tive aulas com ele escutei comparações de meu olhar com o de Capitu. E eu, que sempre me apaixonava por olhares, passei a utilizar com mais intensidade os meus.

-Você jura?

-Juro. Deixe ver os olhos, Capitu!

Tinha me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. (...) Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluído misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, com a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. (...)

(Machado de Assis)

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