Sei que deveria dizer todas essas coisas na sua cara, mas também sei que quando você está por perto eu só sei sentir medo. Medo e asco. E por mais que eu tentasse te dizer algo, minhas palavras certamente seriam silenciadas por suas atitudes torpes e brutais. Então escrevo. Vomito minhas mágoas em forma de letras para extirpar qualquer resquício de sofrimento que ainda insista em povoar esse coração.
Eu me esforcei. Meu Deus, como eu me esforcei para ter boas lembranças. Mas as boas lembranças apodreceram, junto com tudo o que um dia eu senti por você. Não compreendo como pude me enganar. Justo eu, sempre tão mulher, sempre tão inteligente, me permiti ser sua presa fácil. Submissa, enfraquecida e absurdamente viciada no seu jogo. Coisas que até hoje eu não consigo entender.
Você foi a droga mais pesada que eu usei. Uma droga, não há outra definição. Me fazia um mal enorme, mas eu, viciada e sem consciência só desejava mais, e mais, e mais. Hoje, distante do vício, vejo o quão medíocre foi minha vida a teu lado. Anos de engano, sofrimento e solidão a dois.
Vi minhas roupas mais ousadas rasgadas, vi seu desprezo pelas coisas que escrevia a seu respeito, vi seus amigos rindo da minha cara sabendo de tudo o que você aprontava longe de mim, vi por diversas vezes seu olhar de fúria naquelas noites intermináveis, vi a rapidez com que me afastei dos meus amigos, vi você maldizer meu fino enquanto enchia a cara e me traía, vi as rosas vermelhas secando, vi minhas insônias, vi minha doença crescendo, vi meus planos escorrendo como água pelo ralo, vi a aliança de ouro jogada no asfalto, exatamente como a minha vida. Vi tudo e não vi absolutamente nada.
Ao final, você foi embora. Não sem antes destruir o último pilar que sustentava aquele edifício de dor e incertezas. E eu morri. Ressuscitei ao fim do terceiro mês, doze quilos mais magra, com grandes olheiras e receosa. Me olhei no espelho e me assustei com a minha imagem. Vi resquícios de hematomas e cicatrizes espalhadas pelo corpo. Vi aquela moça alta e loira e não me reconheci.
Aos poucos, eu reassumi o controle da minha vida. E posso te dizer, que apesar de todos os problemas que tenho enfrentado eu estou bem. Trabalho, ganho bem, estudo, danço, me divirto. E por mais que você reapareça tentando destruir, você não conseguirá. Eu tenho medo de você, confesso. Mas bem maior que o meu medo é a minha vontade de ser feliz.
Quanto ao passado, devo dizer que te amei. E só eu sei como amei. Mas hoje, você é a apenas a página da minha história que eu gostaria de arrancar.
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