terça-feira, 11 de agosto de 2009

Carta de desamor

Sei que deveria dizer todas essas coisas na sua cara, mas também sei que quando você está por perto eu só sei sentir medo. Medo e asco. E por mais que eu tentasse te dizer algo, minhas palavras certamente seriam silenciadas por suas atitudes torpes e brutais. Então escrevo. Vomito minhas mágoas em forma de letras para extirpar qualquer resquício de sofrimento que ainda insista em povoar esse coração.

Eu me esforcei. Meu Deus, como eu me esforcei para ter boas lembranças. Mas as boas lembranças apodreceram, junto com tudo o que um dia eu senti por você. Não compreendo como pude me enganar. Justo eu, sempre tão mulher, sempre tão inteligente, me permiti ser sua presa fácil. Submissa, enfraquecida e absurdamente viciada no seu jogo. Coisas que até hoje eu não consigo entender.

Você foi a droga mais pesada que eu usei. Uma droga, não há outra definição. Me fazia um mal enorme, mas eu, viciada e sem consciência só desejava mais, e mais, e mais. Hoje, distante do vício, vejo o quão medíocre foi minha vida a teu lado. Anos de engano, sofrimento e solidão a dois.

Vi minhas roupas mais ousadas rasgadas, vi seu desprezo pelas coisas que escrevia a seu respeito, vi seus amigos rindo da minha cara sabendo de tudo o que você aprontava longe de mim, vi por diversas vezes seu olhar de fúria naquelas noites intermináveis, vi a rapidez com que me afastei dos meus amigos, vi você maldizer meu fino enquanto enchia a cara e me traía, vi as rosas vermelhas secando, vi minhas insônias, vi minha doença crescendo, vi meus planos escorrendo como água pelo ralo, vi a aliança de ouro jogada no asfalto, exatamente como a minha vida. Vi tudo e não vi absolutamente nada.

Ao final, você foi embora. Não sem antes destruir o último pilar que sustentava aquele edifício de dor e incertezas. E eu morri. Ressuscitei ao fim do terceiro mês, doze quilos mais magra, com grandes olheiras e receosa. Me olhei no espelho e me assustei com a minha imagem. Vi resquícios de hematomas e cicatrizes espalhadas pelo corpo. Vi aquela moça alta e loira e não me reconheci.

Aos poucos, eu reassumi o controle da minha vida. E posso te dizer, que apesar de todos os problemas que tenho enfrentado eu estou bem. Trabalho, ganho bem, estudo, danço, me divirto. E por mais que você reapareça tentando destruir, você não conseguirá. Eu tenho medo de você, confesso. Mas bem maior que o meu medo é a minha vontade de ser feliz.

Quanto ao passado, devo dizer que te amei. E só eu sei como amei. Mas hoje, você é a apenas a página da minha história que eu gostaria de arrancar.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Deixe ver os olhos, Capitu!

Escrever pra mim é tão essencial quanto respirar. Eu durmo, como e respiro palavras. É assim desde sempre.

Já perdi as contas de quantas vezes criei blogs e abandonei-os. Creio que me sinto mais a vontade com lápis, folhas de caderno e madrugadas silenciosas. Mas agora, em meio a esse funcionalismo público, eu necessito escrever. Preciso colorir um pouco dessa sala toda pintada em tons pastéis com as cores dos meus escritos. E assim o farei.

Eu pensei em mil títulos para esse blog. Pensei em Alma corsária, título de um poema que tanto me identifico de Cláudia Roquette. Alma corsária, tão parecida com a minha. Apaixonada por citações, apaixonada por casos perdidos. Pensei em Para uma menina com uma flor, de Vinícius, mas esse título já está sendo utilizado e no momento, acho que estou mais para uma menina sem uma flor. Pensei em algum título em latim ou algo engraçado. Mas, novamente me vi envolvida por Machado de Assis e pela personagem de Dom Casmurro.

Essa história começou há alguns anos atrás, numa aula de Literatura, no cursinho. Eu estava sentada em minha carteira, com o olhar perdido no quadro negro, quando o professor, um rapaz novo e imensamente inteligente disse baixinho para mim:

-Você e esses seus olhos de ressaca. Nunca conheci ninguém que tivesse um olhar tão misterioso quanto o seu.

Sorri sem graça, mas envaidecida. E durante todo o tempo em que tive aulas com ele escutei comparações de meu olhar com o de Capitu. E eu, que sempre me apaixonava por olhares, passei a utilizar com mais intensidade os meus.

-Você jura?

-Juro. Deixe ver os olhos, Capitu!

Tinha me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. (...) Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluído misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, com a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. (...)

(Machado de Assis)